Enfim, a hipocrisia...


"O grande problema não são as poucas pessoas que escolhem fazer o mal; são todas as pessoas que não escolhem, que não se posicionam sobre ser más ou boas, sobre contribuir para o mal ou para o bem. Foi a indiferença da grande massa, sua abdicação de responsabilidade, que possibilitou o Holocausto, não a crueldade de um pequeno número de pessoas más."

Ann Heberlein, autora de "Arendt - Entre o amor e o mal: uma biografia"



É estranho assistir algumas pessoas agradecerem o presidente Jair Bolsonaro por ter comprado as vacinas contra a Covid 19. Primeiramente, porque a CPI da Covid 19 demonstrou documentalmente que o referido mandatário agiu no sentido contrário à produção, compra e distribuição de vacinas contra Covid 19 durante praticamente um ano (quem lembra da campanha contra a “vachina”?). O governo Bolsonaro resolveu comprar vacinas no quadragésimo nono minuto do segundo tempo – o que adiou consideravelmente, à revelia de propostas de laboratórios como a Pfizer, a possibilidade de o Brasil estar na vanguarda da imunização.

Em segundo lugar, porque a mesma CPI tem comprovado acima de dúvida razoável as tentativas de criação de esquemas de corrupção para obtenção de lucros bilionários e ilegais com a compra de vacinas a empresas sem a menor idoneidade. No momento de luto nacional pela perda de mais de meio milhão de vidas, desenvolvia-se no âmbito do Ministério da Saúde um estratagema para se lucrar em cima da dor da morte e da necessidade de salvar os demais brasileiros.

É estarrecedor presenciar tais manifestações de gratidão, ainda, porque o presidente da república recusou-se inúmeras vezes a utilizar máscara, ingressou no STF com medidas judiciais visando acabar com as medidas de isolamento social, gastou imensas somas de dinheiro público com remédios e tratamentos anti-Covid sem nenhuma comprovação científica de eficácia – dentre inúmeros outros atos de sabotagem aos mecanismos verdadeiramente aptos a debelar a pandemia da Covid 19 no país.

Cabe ao governo federal a prerrogativa de coordenar as ações do SUS no combate a endemias e pandemias – embora ele tenha se recusado durante muito tempo a assumir esse papel. Pagamos os impostos que devem ser revertidos em favor da sociedade, sobretudo em matéria de saúde pública. Nessa lógica, imunizar a população conforme os ditames da ciência e a estruturação do Sistema Único de Saúde é uma obrigação óbvia do Poder Executivo federal – principalmente quando premido pelos fracassos do assim denominado tratamento precoce e pelo sucesso da vacinação por tanto tempo boicotada por ele.

Usando seus arroubos, Bolsonaro fez vista grossa para a pandemia em seu início. Vamos relembrar: "Está superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Talvez esteja sendo potencializado até por questões econômicas" (quando o Brasil registrava 25 casos, sem nenhuma morte). Como tem uma visão materialista e beligerante, a ciência não entra em seu cotidiano. Sequer a cultura, a filosofia, a sociologia. Ao contrário de muitos generais, que se aprimoram, Bolsonaro tem apenas a patente de enfant terrible.

"Olha, a economia estava indo bem... Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, eu posso até estar errado, mas estão tomando medidas que vão prejudicar muito a nossa economia" (dia seguinte à primeira morte no país). A frase de Jair preocupado com a economia, destoava do cenário aí sim de guerra que se passava na Europa. O Brasil teve a chance de, estrategicamente (umas das grandes qualidades de qualquer Força Armada) tomar decisões preventivas em relação a pandemia, mas isso não importou muito. Se tivesse lido “A Peste”, de Albert Camus, possivelmente o chefe da nação viesse a ter a noção de como funciona uma endemia que caminhou para uma pandemia.

E durante mais de um ano teve confrontos ideológicos e políticos, quedas de braços, mais parecendo um torneio de macho-alfa. "Para 90% da população, isso vai ser uma gripezinha ou nada" (com menos de 100 mortos), disse um otimista Bolsonaro quando todo o quadro apontava em sentido contrário. "Parece que está começando a ir embora essa questão do vírus" (com 1,2 mil mortos). Seu inaudito otimismo foi responsável pela morte de milhares de pessoas posteriormente. E hoje muitos o ovacionam como a pessoa que coloca a vacina no braço do brasileiro quando sequer deu o exemplo. Ele se vacinou? Ao contrário, quer que as pessoas tenham a liberdade de escolha, contrariando a Constituição que defende a vida.

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre" (em referência a seu sobrenome, quando havia quase 5 mil mortos). O modesto presidente possivelmente quis se comparar ao Mestre Jesus. Messias só no nome. Ou podemos afirmar que foi o mensageiro da morte? Não Jair, você não é herói e nunca será. Talvez o jacaré que você ironizou ao “incentivar” os brasileiros e brasileiras na hora de se vacinarem: "Se você virar um jacaré, é problema seu. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí, ou algum homem começar a falar fino, eles (Pfizer) não têm nada a ver com isso." (sobre possíveis efeitos colaterais das vacinas, com 185 mil mortos). Que vergonha!

"Não vamos chorar o leite derramado. Estamos passando ainda por uma pandemia, que em parte é usada politicamente não para derrotar o vírus, mas para tentar derrubar o presidente" (com 340 mil mortos). É engraçado ler isso, pois essa cruzada inglória foi iniciada pelo presidente que muitos enaltecem hoje pelo fato de cumprir com o dever de adquirir as vacinas. As frases de Bolsonaro mostram o quanto é hipócrita, sádico, um ser sem empatia, um carrasco do povo brasileiro. Tudo feito em um movimento para estar sempre valorizado no jogo eleitoral. Essa sim sempre foi a sua única preocupação: manter-se como presidente do Brasil, custe quantas vidas custar.

Em fins do século IV, São Jerônimo, um dos doutores da Igreja Católica, utilizou a palavra hipócrita para designar o falso bom cristão, o devoto fingido. A propósito de exemplificar o sentido originário da palavra hipocrisia no contexto da pandemia de Covid 19, importa destacar que a postura do presidente Bolsonaro - conhecido a partir da campanha de 2018 por citar trechos do evangelho em discursos políticos e, a partir de 2020, por dificultar imensamente o combate à disseminação da Covid 19 no Brasil - evoca o trecho da peça O Mercador de Veneza em que Shakespeare afirma: “O diabo pode citar as escrituras quando isso lhe convém”. Com Bolsonaro, enfim, prevalece a hipocrisia e espero que só até o próximo ano.


21 visualizações0 comentário